Crie sua própria porta.

De todos os textos já escritos, acredito que os auto-biográficos tenham sido os mais difíceis de nascer. Falar de si mesmo é um parto demorado, doloroso, uma corda bamba e fina que oscila entre ser modesto ou totalmente exibido. Apresentar-me a esse blog como escritora (o que, na verdade, não sou) custou-me suadas primeiras linhas e muitos devaneios que pairaram durante segundos acima do clichê “nem eu mesma me conheço”.

Olá, meu nome é Letícia, tenho 24 anos e você já sabe que não sou escritora. Tampouco sou crítica das artes. Aprecio literatura e cinema como qualquer um de nós nesse fundo de quintal, atrás dos que estudam arduamente para analisar a fotografia de uma cena, o roteiro original ou adaptado, os neologismos de Guimarães Rosa e a solidão de cem anos de Gabriel García Márquez. Só sei escrever como quem conversa, naturalmente.

E preciso confessar: sempre odiei chás. Desde pequena, nunca consegui beber. Mas quando me ofereceram esse aqui, feito de histórias, senti um aroma delicioso e beberiquei da pontinha da xícara o líquido ainda fumegante. Os muitos sabores explodiram na língua. Acho que senti o doce da fantasia e o amargo dos dramas. As poesias estalaram no céu da boca. E essas gotinhas de limão com certeza vieram de algum romance. Sorvi-o todo com satisfação e me servirei de mais, todos os dias.

E então, por que estou aqui, se não sou crítica, se não me atrevo a me chamar escritora? Qual é a minha ligação com os temas que serão abordados nesse blog?

Aprendi a ler aos 4 anos de idade por pura curiosidade. Mamãe, o que está escrito ali? – perguntava com o dedo indicador em riste, apontando para as placas das ruas. Pacientemente, ela me ensinou as letras, porque não conseguia saciar todas as minhas perguntas (ou talvez não mais aguentasse que puxasse a barra de suas roupas insistentemente). Levava para casa os livrinhos da minha primeira professora e, após devorá-los em poucos dias, voltava pedindo por mais – apesar de querer ficar com eles e montar uma biblioteca. Perdi as contas de quantas vezes faltou-me o fôlego nas muitas (na verdade, considero poucas. Ler nunca é demais) páginas que li.

Ainda pequena também conheci os filmes, no Cine Montes Claros que ficava no centro da cidade. A mãe diz que o primeiro foi “Marcelino pão e vinho”, mas me recordo mesmo de “Aladim” e de todas as lágrimas que o ladrão da feira apaixonado pela princesa me fez derramar. Tomei gosto pela fantasia e mágica. Não obstante, esse gênero encabeça meus favoritos. Se tivesse muito dinheiro – e caramba! Vamos combinar que a entrada é um grande absurdo! – diariamente iria ao cinema.

Portanto, minha história com o apreço a essas coisas é simples, não tenho ou sou algo a mais. Minha vida está para leitura e cinema assim como, creio eu, está a sua que agora me lê: identificação. É para rir e chorar que leio ou sento-me frente à telona, cercada de pipoca. Para adentrar-me nas linhas e enredos e viver as angústias e amores como se fossem meus. Ouvir as canções, beijar os galãs, suspirar as poesias.

A arte, no frigir dos ovos, é uma porta que nós mesmos criamos e deixamos escorada para de vez em quando escancarar e encontrar um mundo de sentimentos, guardados em livros com cheiro de passado e filmes enfileirados em estantes.

Essa aqui é a minha porta e ela estará sempre aberta. Puxe um livro, cante na chuva com Gene Kelly, voe nas costas de Falkor, sonhe e imagine comigo. Tenho chá e bolinhos de chocolate na mesa, pode se servir.

E se a mente estiver trancada, há no canto lá em cima à direita… Vê? É o giz mágico do Fauno. Faça desse mundo um lugar seu.

Create your own door.

Crie sua própria porta.

Sobre o Autor:

Letícia Letícia é uma não-escritora e leitora de fundo de quintal. Permitiu-se voar até no nome: Letícia Liberty Libertad. Liberlety.
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13 pensamentos sobre “Crie sua própria porta.

    • Obrigada, Nanda! Em breve teremos mais.
      Quem sabe não fomos até mesmo juntas ao Cine Montes Claros? Lembro-me de que foi numa excursão da escola.
      =)

  1. Tá bom, tá bom!
    Não vou falar tudo aquilo que te disse quando li seu texto… Mas não posso deixar de expressar a minha alegria de ter uma “escrivinhadora” (já que você não se considera uma escritora, inventei um termo pra você! Uhuahuhauahau…) tão linda, emocionante e verdadeira como você aqui no blog. Obrigado por aceitar servir esse tal sonhado “Chá” comigo. Obrigado por ser tão Lety em todos os momentos! Obrigado parceira… Sucesso!

    • Own, Fá! =) Obrigada, de verdade!
      Eu que me sinto honrada pelo convite feito a essa humilde não-escritora.
      Espero que ainda possamos rir e nos emocionar muito ainda nessa hora do chá.
      Beijos :*

  2. Ainda bem que não é escritora. Imagina se fosse?
    Anseio pelo que está por vir. Deus do céu!
    Lindo texto. Parabéns!

  3. Pingback: Histórias para minha vida! |

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